O ESPANTALHO
Em cada derrota da vida
hei de ver o teu rosto
azulado,
mesquinho,
hei de ver tua boca
gozando do meu fracasso,
enchendo de pragas
o vazio da minha existência.
Em cada esquina do caminho
hei de sentir tua presença
escorregadia,
subterrânea,
escondida demais...
Hei de ver tua sombra
nas paredes do desespero,
apontando para mim
o dedo decidido,
como a indicar que é este
o verdadeiro caminho a seguir.
Em cada queda do corpo,
em cada ferida aberta na carne
pelas vicissitudes do destino,
ou mesmo pelo ódio de viver,
hei de ver que tua mão
torna-se um objeto terno
onde o corpo vagabundo,
sem sentido e sem perspectivas,
pode se apoiar.
Em cada golpe mortal que levar
o corpo do espantalho
deverá, decerto, lembrar-se de ti,
porque tua imagem se superpõe
e torna-se parte integrante,
das minhas lamúrias,
do meu ventre,
do meu nojo de viver!
Em cada recanto escondido,
como sombra, hei de ver-te
assombrando minhas noites sem sono,
tornando em inferno
as minhas insônias intermináveis.
E hei de ver-te como fantasma,
na curva da estrada que leva para o nada.
E hei de ver-te como vertente
no olho d’água que não me mata a sede.
Como a esperança hei de ver-te,
ou como o momento que falta
durante a loucura que de mim se aproxima.
Em cada derrota da vida
hei de ver-te como símbolo de justiça,
ou como uma estátua de gesso
que somente faz acenos
e não pode tornar-se gente!
E em cada corpo que eu tocar
hei de sentir o teu corpo,
em cada beijo que eu beijar,
hei de sentir o roçar morno
dos teus lábios de compaixão.
E em cada curva
que o caminho fizer a minha frente
hei de ver um outro caminho
que irá levar-me até a tua morada.
E depois de adentrar a escuridão,
de dentro dela,
hei de sentir naquelas paredes
o frio da tua ausência,
o hálito do teu não estar.
Então, em cada móvel existirá
a tua marca, ou as tuas promessas,
e naquele nicho de Nossa Senhora
o resto longínquo de algum sonho
que quiseste, um dia, em vão sonhar.
E depois que estiver em prantos,
olhando para tudo aquilo,
que de tanta saudade,
teve mesmo que morrer,
hei de sentir também
uma escuridão na alma,
e hei de voltar correndo para a vida
que por tua causa abandonei!
E quando encontrar
com ela novamente,
hei de ver em cada gota de orvalho,
em cada folha que cai da árvore,
em cada regato que se torna em fonte,
o desalento de uma natureza morta
que não poderá mais reviver!
E hei de sentir que o espantalho
mexe-se no pomar,
enquanto o pássaro pousa em seu ombro,
e hei de sentir-me também um espantalho,
com a cara idiota de panos velhos,
coloridos,
desfiados e sujos,
abrindo os braços em desespero,
como se quisesse implorar aos céus
algum caminho melhor que o teu.
E hei de pedir a Deus que te perdoe,
hei de rezar para que ele não te esqueça,
e hei de implorar que ele também
faça de ti
um espantalho louco, insípido
e desesperado como eu...